O ROCK MINEIRO RESSURGE EM PELOS

Por Anderson Camilo

Como um grito silencioso em um suposto espaço mesquinho surge “Fausto de Gueto”. Não é de se espantar a força épica do personagem em questão se analisarmos e ouvirmos o material da banda nesses quase 20 anos de atuação. Do alto da Serra a hoje, eu diria a lendária Pelos de Cachorro, há muito vem se manifestando, interagindo e configurando uma carreira verdadeiramente sólida e com proposições coletivas. Construindo e colaborando com ideias e ideais para lá de sociais com inclusão, formatação e circulação de conhecimentos.

Como um “Paraíso Perdido nos Bolsos”, título do mais recente trabalho da banda, encontramos a epopeia de Fausto de Gueto, música e vídeo recém-lançados. Ao contrário do poema do alemão Goethe, louco e desesperado que sai largando versos em rimas trágicas, aqui o personagem meio que transita no espaço urbano com uma certa invisibilidade social. Não sabemos precisamente, se intencional ou exclusiva, a solidão conclama a um silêncio necessário, profundo e reflexivo, mas não sem resistência. Tamanha exclusão, a impressão que temos é que o personagem está sozinho no mundo.

Porém, muito pouco podemos afirmar com a devida atenção que a proposta exige, com o mínimo de discernimento da realidade circunstancial e analítica. Não se faz necessário um mergulho profundo. Isso os criadores já fizeram. Não é uma leitura fácil. Talvez direta. Repito: necessária.

Imerso nessa invisibilidade social o personagem parte em um triste e belo monólogo noite a dentro. Um diálogo solitário e mudo como se o personagem falasse consigo mesmo ou conversasse com algo superior. Uma reflexão bem profunda para ceder espaço a conjecturas. Só não vê quem não quer. Só não sente quem não é capaz de se tocar e enxergar o outro.

A questão não é um minimalismo fora de moda, nem apenas um simples flerte estético entre música e imagem, mas acima de tudo uma busca nunca fora de questão, uma clara impressão do aqui e agora.

Embalado por guitarras que não fogem às influências mais viscerais da banda, com um piano quase lírico tamanha perfeição e coerência musical. Ao fundo o coro das mulheres negras – Júlia Tizumba, Luiza Daiola, Manu Ranilla e Michele Oliveira (solista) – parece prever um dilúvio tamanha beleza. Uma clara e imponente influência do melhor da música negra gospel norte-americana, eu diria a América Negra de raízes bem profundas. Entre planos sequenciados e silenciosos, o personagem interpretado pelo jovem DJ Saulo Marte (Saulim MC), margeia o espaço com muita poesia urbana. A direção e o roteiro de imagem primoroso são assinados por Arthur B. Senra e Robert Frank, com direção executiva de Alessandra Cmcr (Casa Mascate Cultura de Rede) e luxuosa direção de fotografia e câmera de Ceres Canedo. Robert Frank também é responsável pelo vocal, junto aos parceiros e guitarristas Heberte Almeida e Kim Gomes. Poucas coisas são tão fortes quanto as três guitarras, característica particular da banda. Nada como a maturidade de um artista, sempre se reinventando, fortalecendo a essência sonora, com uma linda raiz musical.

Se a obra do escritor alemão levou toda uma vida para ser concebida e consumida, no personagem do nosso Fausto de Gueto, a dinâmica é rápida e bem contemporânea. Há urgência e necessidade. O jovem desejo de renovação natural surge com muita força na proposta da banda já não tão jovem assim. Experiente e dotada de um poder de organização e mobilização que justificam a própria existência, a banda se aliou e contou com a colaboração de vários jovens feras do audiovisual (cinema). A direção de arte do videoclipe demostra um primor comum aos atentos. Uma bela fotografia bem contemplativa no tempo e medida certos. Uma irmandade.

Agora imaginem vocês, uma banda com 20 anos de atuação e experimentação influenciada pelo melhor do bom rock inglês, ao soundsystem dos guetos de Kingston (1950) e que se faz entender na contemporaneidade como poucas, tamanha resistência e configuração, permeando e se configurando como uma música acima de tudo negra e universal.

Esse lance meio antropofágico a princípio pode não parecer nada moderno. Bandas como Baiana System, The Baggios, Criolo, Emicida e Nação Zumbi sempre fizeram e andam fazendo com muita força e maestria essa junção de ritmos. Típicos de vanguardas, movimentos emancipatórios e ultra criativos. Esse grito que ecoa dessa proeminente cena em uma era que a música alternativa e selos independentes estão mais fortes e populares, tendo as redes sociais e os streamings como principais plataformas de divulgação e veiculação, buscando esse reconhecimento e delimitando de fato os seus espaços.

Auto gestores, a exemplo da Laboratório Fantasma, vêm levando suas produções para todas as partes do país e do mundo. Partindo desse raciocínio, BH jamais ficaria de fora, dessa renovação. Se observamos que em menos de duas semanas dois importantes e aguardados clipes “Eu nunca fui ao Inhotim” da banda !Slama e “Fausto de Gueto” foram lançados e de cara já agradaram um público cada vez mais exigente. No caso do material da banda Pelos, têm vários dedos e algumas mãos. Talvez essa característica de produção coletiva, afinada e informada, o vídeo sinaliza como uma espécie de material divisor de águas não só para a banda quanto para a cena local. Muita música e fotografia de qualidade indiscutível que tem hora de chegar mais jamais de partida. De uma atemporalidade nada conveniente. Precisa, segura, certeira, direta como um grito de quem tem a razão.

Portanto nobres amigos, quando vocês ouvirem o refrão “Não fico em silêncio, não me entrego ao medo!” saibam que não há nada mais sincero que a verdadeira manifestação da alma. Nada mais resistente que um sangue de uma raça. Nada mais necessário que estarmos atentos. Não só ao momento e aos acontecimentos, mas sobretudo à nossa capacidade de resistência e transformação.