DAS COISAS ENCONTRADAS NOS BOLSOS # 1

Por Thiago Pereira

Das coisas mais lindas que eu já conheci: a circularidade da vida e em como o pop (como linguagem, subjetividade, cimento que nos liga; não como gênero) sabiamente a respeita e a acompanha. A sensação de retorno, voltar a determinado ponto, conforta e rouba aquele sorriso de canto de boca. 

(pelos de) Cachorro mordendo o próprio rabo.

Foi isso que me deteve e tomou a atenção quando escutei o primeiro single deste disco. “Tema #3” me levou de volta a 2007 ou 2008, não sei se bem me lembro. Foi quando conheci uma história chamada Pelos de Cachorro. Hashtags curtas e grossas e imediatas da época, para aproveitar a inspiração da canção atual: #comunidade #faverock #visual #rock. A música veio depois via CD, e com indicação clara, de infelizmente, não me lembro quem: “Atenção para a primeira faixa“. Nem precisava: aquele ainda era um tempo onde, pelo menos para mim, a lógica de escuta exigia respeitar a ordem sugerida pelos músicos.

“Estragos Sutis” não poderia ser cartão de visitas mais adequado para a tal Pelos de Cachorro; já continha em si todos os méritos que a banda carrega até hoje (lembrem-se da circularidade…), qualidades que me remetem mais a sensações e a sinestesias (ambiência, clima, cheiros, cores) do que o material do que isso tudo foi feito (TRÊS guitarras, baixo pulsante e seguro e a voz, ah a voz). 

Em cima de tudo, um dos refrões mais importantes / impactantes / impressionantes / imprevisíveis do rock mineiro desde sempre: “Eu peço a sombra / Eu peço a sombra / Para não me assombrar“.

Foi com assombro que recebi os arpejos de “Tema #3”: porque harmonicamente me levaram ao riff de “Estragos Sutis”; porque parecia uma ponte nítida entre o que foi o Pelos de Cachorro e o que são o Pelos hoje. Os tempos e os espaços passaram, abismos memoriais que nos separam, eu e a banda, todos nós, daquele primeiro contato. Não apenas o Cachorro do nome de batismo ficou pelo caminho. Certa sisudez, trevismos góticos deram lugar à coros, bossas noir, guitarras mais diretas, pianos. Planos de vôos mais intensos, parametrizados com o que sempre foi essa banda num palco.

Mas a sombra segue a assombrar.

(E ainda não sei se te faço mistério ou passado…)

Daí achamos sob o sol infernal de novembro esse “Paraíso Perdido nos bolsos”.

DOS PARAÍSOS PERDIDOS (e achados) # 1

Ou ele nos achou? Das coisas mais importantes que eu já conheci: a(s) necessidade(s) da vida e em como o pop (como linguagem, subjetividade, cimento que nos liga; não como gênero) sabiamente a(s) nutre e satisfaz.

Porque, olha, “Paraíso perdido nos bolsos” é, em diversos sentidos, muito do que eu precisava para agora (e você também, desconfio). Um disco que chega como um alento neste estranho e revelador ano, uma luz no fim de tudo. Porque é um disco forte, que se posiciona, que luta, que sofre, que acalma, que diverte, que me inventa paixões, me sufoca temores, que está, pleno, cheio de vida. Mas porque (vale sacodir os bolsos em busca daquele adjetivo ideal) é um disco bonito demais. Demais. Demais.

É o disco que eu precisava pra esses dias, bons e os maus, que correm.

(Caio em tentação ao olhar no canto da sala o velho vinil e aciono Ian McCulloch do Echo and The Bunnymen: “Heaven Up Here!”)

Como insisti com esses caras, parceiros de afetos, de admirações, de projetos outros (poeiras estrelares…) tenho convicção e tesão demais em dizer que é o melhor disco do Pelos. De longe. Todos os méritos anteriores (a voz única do Frank; as guitarras maravilhosamente tortas do Kim, ébrio e sonhador, e as maravilhosamente plenas do Heberte, preciso e inesquecível, o baixo sólido e sintuoso do Joymar, e, putaquipariu, as baterias do Mamede)? Estão aqui. Aquela banda, descrita com tanta precisão e entusiasmo pelo Bruno Miari há uns 10 anos atrás, como “a mistura de Nick Cave com Milton Nascimento”, estão aqui.

E olha… estão aqui e estão muito além.

Poderia dizer que “Paraíso perdido nos bolsos” é “o disco que os caras mereciam fazer”; “o trabalho de músicos maduros”, “o encontro exato da pegada rock suprema com os detalhismos que eles sempre perseguiram”, “ a ousadia e a experimentação sem perder o olho da canção”, “um festival de lindos timbres e arranjos” etc etc etc.

E, bem estou dizendo tudo isso né?

Mas para além dos atalhos-clichês, prefiro sentenciar que este é o disco do Pelos, definitivo, porque é o que tem “De Outubro” e seus sopros & letra & suingue picassofalseano que, deus, neguim daria a alma pra conseguir tirar. E aí desistiria quando chegasse no refrão, porque fazer essa transição como eles fazem aqui, de forma tão natural…

É o melhor disco do Pelos porque tem “Fausto de Gueto”, que, e me arrisco aqui, é a canção-template, aquela que guia o ouvinte para a banda. Negritude à flor da pele, pianão, as meninas no coro (são tantas vozes…), a letra, o título da música, o recibo raivoso passado com elegância (Sua casa grande vai desabar…), a letra toda, a letra toda, a letra toda! O som e a fúria sintetizados numa balada clássica.

Sim, é o Pelos em sua melhor forma. É o disco de “Tema #3”, o encontro celestial de Radiohead com Milton, uma proximidade que nunca esteve tão visível quanto aqui. Ah, mas é o disco de “Down The River”, aquele southern rock negroide – uma linda ironia – canção épica, canção para estádios, canção perfeita.

Mas, espera, “Paraíso perdido nos bolsos” será para sempre o disco de “Supernova”. A MELHOR MÚSICA POP que o Pelos já fez. Uma coisa meio Legião Urbana circa 1989, uma vibração The National, tudo uma assinatura Pelos, com um não-refrão abençoado, com uma melodia linda… Um “Era jovem demais, pra não acreditar em nada” que fica martelando na cabeça hoje, mas que justifica uma longa, longuíssima viagem ao passado… Quando chega o peso de “Etienne”, e aquele riffzinho de guitarra marcando tudo, já estamos aqui, de volta, pés firmes no presente, ritmado no rock. Mas, coisa de álbum que funciona como narrativa, a eletricidade que ela causa (“Eu queria a paz, meu corpo vive o medo”) se destensiona brilhantemente em “Onde Vivem Os Pássaros”, tensão solta da gaiola pela lisergia, pelo onírico, texto + música funcionando com perfeição, a dobra de vozes, a beleza, a beleza, A BELEZA.

Entramos em modo cinematográfico, de repente…

A desaceleração da faixa, como corpo quase afogado no rio, emerge lentamente em “White Rose In Your Hair”, primeiro piano e voz e depois a banda vem subindo junto, câmera lenta…“Eu Neon” é reaprender a andar, solo firme, superfície dançante. O filme começa a terminar… “Pra onde vou, eu não sei…Mas agora já não ando só”.

(E eu visualizo, lágrimas nos olhos, esses cinco caras, juntos, indo embora, com tantas perfeitas canções)

E aí percebemos que, este é o disco do Pelos que, nos créditos finais, tem “Laura”.

E “Laura” talvez seja a música mais bonita que eles já fizeram.

E “Laura” trás as palavras que confundem, que enlouquecem, mas que também são palavras de redenção, porque tudo aqui, ali, lá, é luz e sombra.

E as sombras seguem nos assombrando: “O amor vai nos encontrar no fim, e o fim não é se despedir. De um sonho um todo ressurgir. E até lá…E até lá”.

O lá já está aqui: nos seus ouvidos.  

Lá já é aqui: paraíso encontrado nos ouvidos que alimentam a alma.

Só desejo, a partir de agora, a mesma experiência para todos vocês.